(NG DECOR) - Home Staging & Decoração XXI: As redes sociais estão a mudar a arquitectura das casas?
É quase meia-noite e continua a fazer scroll: uma cozinha com arco de gesso, uma parede cor de barro, uma bancada arredondada. Guarde a imagem com a legenda “um dia”. Multiplicado por milhões de pessoas, este gesto começa a moldar a forma como as casas são desenhadas.
Foi isso que o Pinterest captou ao lançar a sua previsão de tendências decoração 2026, baseada não na opinião de arquitectos, mas nos milhares de milhões de imagens que os utilizadores procuram e guardam. Estarão as redes sociais a mudar a arquitectura das casas ou apenas a trocar-lhes a decoração?
A influência não começou agora
Sim, as redes influenciam mesmo a arquitectura, e não só a decoração. Plataformas como o Instagram e o TikTok moldam preferências estéticas, aceleram modas e servem de ponto de partida a projectos que nascem de uma imagem guardada. Para quem projecta, esta influência já é um facto.
O que é novo é o alcance. Muito antes do primeiro reel, a arquitectura contemporânea já se dava a ver em revistas, escolhida e enquadrada pelos próprios autores. Hoje, o controlo passou para plataformas que não respondem a arquitectos nem a editores. A revista saía uma vez por mês, mas o feed renova-se ao segundo e é aí que tudo se complica.
- O que mudou: o poder de definir o que é desejável passou das revistas e dos arquitectos para as plataformas.
- Desde quando: a ArchDaily já documentava o fenómeno em 2019, com o vídeo Building Images.
- O que fica: a casa deixou de ser pensada apenas para quem lá vive e passou a sê-lo também para quem a vê.
O que é uma casa "instagramável"
Uma casa "instagramável" é, na definição mais simples, um espaço pensado para ficar bem na fotografia. Não é um estilo, é um critério: cada divisão e cada parede valem pela imagem que conseguem gerar. O termo não consta do dicionário, e ainda assim toda a gente sabe o que quer dizer.
Os ingredientes das casas Instagramáveis repetem-se tanto que viraram receita:
- Luz natural em abundância, o factor que mais separa uma boa fotografia de uma má, com janelas amplas e cortinados leves a suavizar a claridade.
- Composições limpas e superfícies arrumadas, sem a desordem do dia a dia.
- Uma parede-cenário, com cor, textura ou um papel que sirva de fundo reconhecível.
Um estudo da Schofields Insurance, noticiado pelo The Independent, concluiu que 40,1% dos millennials escolhem destinos pela sua fotogenia. No alojamento local, casas que rendem boas imagens enchem reservas, sobretudo no luxo e no arrendamento de curta duração. Fica a questão: há espaços deslumbrantes na imagem e quase impossíveis de habitar, pensados apenas para o clique?
"As redes sociais mudaram a forma como viajamos, consumimos e comunicamos. E, cada vez mais, estão também a mudar a forma como pensamos e desenhamos as nossas casas", explica Nuno Garrido, consultor imobiliário. "Hoje, muitos projectos parecem ser concebidos para resultar bem numa fotografia ou num vídeo, em vez de responderem às necessidades reais de quem os habita. Multiplicam-se as ilhas de cozinha, as paredes de destaque e os cantos instagramáveis, muitas vezes porque funcionam bem perante uma câmara, e não porque tornam a casa mais confortável ou funcional", acrescenta o especialista.
As tendências das casas modernas: branco total e curvas
Durante uma década, o feed impôs um ideal repetido até à saturação: minimalismo extremo, tudo branco, linhas rectas, superfícies nuas, a estética da caixa perfeita. Era fácil de fotografar e ainda mais fácil de copiar. Como acontece com tudo o que se replica em massa, chegou um momento em que deixou de dizer alguma coisa.
A mudança chegou. Nos últimos dois anos, ganharam força:
- Paredes curvas;
- Arcos nas passagens;
- Ilhas de cozinha arredondadas;
- Mobiliário sem esquinas.
Ao longo de 2025, a imprensa de design internacional tratou a curva não como capricho, mas como mudança de fundo. A razão diz muito sobre o que está por trás destas tendências de arquitectura: a curva fotografa melhor.
O design viral do TikTok acelerou tudo. Um vídeo de segundos transforma um arco, um nicho ou um tecto pintado numa receita replicável. As casas modernas seguem estas tendências à velocidade dos vídeos.
O open space volta-se a fechar
Poucas ideias marcaram tanto a casa recente como a planta aberta. Deitar paredes abaixo, juntar sala e cozinha num só volume, deixar a luz correr de ponta a ponta: durante anos, open space foi sinónimo de moderno. As redes amplificaram-no, porque um espaço amplo fotografa melhor. As cozinhas instagramáveis nasceram desta lógica, meio bancada, meio palco.
Convém esclarecer que o open space não saiu do Instagram. Já fazia parte da arquitectura moderna muito antes do primeiro telemóvel com câmara. As redes limitaram-se a amplificá-lo e a torná-lo aspiracional para um público enorme.
A pergunta é outra: continua a ser tendência? Em 2026, a resposta começa a ser não. Regressam portas de correr, meias-paredes e estantes divisórias, em nome do silêncio e da privacidade que o volume único nunca ofereceu. A rede que vendeu a parede abaixo vende agora a parede de volta.
O problema não é a moda, é a velocidade
Modas sempre existiram. O que as redes sociais mudaram não é a existência de tendências, mas o ritmo a que nascem e morrem. No design de interiores, muitas são hoje micro-modas: estéticas de nicho que surgem, explodem e desaparecem em poucos meses, ganham nome, geram milhares de vídeos e ficam datadas antes de a tinta secar.
Adaptar a casa a uma moda que pode não durar dois verões é aceitar uma remodelação com prazo curto. As tendências virais são passageiras, e a mesma rede que as lança costuma trazer logo o seu contrário. O próprio Pinterest confirma isso sem querer: cada nova previsão prova que o gosto colectivo vira depressa, e cada lista nova empurra a anterior para fora de moda.
Nuno Garrido traz uma questão mais profunda. "Muitas pessoas acabam por fazer escolhas imobiliárias para projectar uma determinada imagem, optando por casas maiores, mais modernas ou mais fotogénicas, mesmo que isso implique um esforço financeiro excessivo. Mas uma casa que serve apenas para impressionar pode transformar-se numa prisão financeira. Na minha opinião, o verdadeiro luxo não é viver num espaço perfeito para publicar nas redes sociais. É viver numa casa que nos dá liberdade, tranquilidade e qualidade de vida, sem que o estatuto tenha mais importância do que o bem-estar."
Vale a pena desenhar a casa para o Instagram?
Depende do que procura. Se o objectivo é valorização estética imediata, revenda rápida ou um alojamento local que precisa de encher reservas, pensar a casa para a fotografia pode ter retorno. Se o objectivo é viver, a lógica muda. A boa notícia é que os dois objectivos não são inimigos obrigatórios: uma casa com luz natural, bem organizada e fiel à sua identidade pode ser agradável de habitar e bonita de fotografar.
Volta à meia-noite e ao polegar a deslizar. A imagem que guardaste foi influenciada por um algoritmo que somou aquilo que milhões de pessoas guardaram antes de si, e daqui a dois anos poderá sugerir-lhe o contrário do que hoje lhe encanta. Há algo que a câmara nunca fará por s: morar na casa depois de a fotografia deixar de somar likes. Essa parte continua a ser sua.
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